2018-05-08

O segredo dos escravos reprodutores - Expresso 2015-12-08





Reprodução de “Chafariz d’el Rey no séc. XVI” (pintura flamenga, 1570-80, de autor desconhecido, óleo sobre madeira, 93 x 163 cm, Coleção Berardo), onde são visíveis vários africanos a desempenhar diferentes tarefas. Na imagem mais pequena, reprodução da primeira página do documento que está na Biblioteca Nacional da Ajuda, cópia do século XVIII do original de Venturino, que relata o episódio dos escravos reprodutores de Vila Viçosa. Ao lado, imagem atual do espaço onde existiu a “ilha” no paço ducal da Casa de Bragança, então habitado por escravos. Ainda hoje os trabalhadores referem-se à zona pelo mesmo nome.


Desumanização. Documento pouco conhecido do século XVI relata criação de escravos, em Vila Viçosa, como se fossem cavalos para reprodução.

A passagem foi escrita em italiano, no século XVI, e é assim que surge no espólio da Biblioteca da Ajuda. Traduzida, revela um português estranho aos leitores contemporâneos e uma realidade difícil de acreditar. “Tem criação de escravos mouros, alguns dos quais reservados unicamente para fecundação de grande número de mulheres, como garanhões, tomando-se registo deles como das raças de cavalos em Itália. Deixam essas mulheres ser montadas por quem quiserem, pois a cria pertence sempre ao dono da escrava e diz-se que são bastantes as grávidas. Não é permitido ao mouro garanhão cobrir as grávidas, sob a pena de 50 açoites, apenas cobre as que o não estão, porque depois as respetivas crias são vendidas por 30 ou 40 escudos cada uma. Destes rebanhos de fêmeas há muitos em Portugal e nas Índias, somente para a venda de crias.”
O relato da existência de escravos reprodutores no Paço Ducal de Vila Viçosa, a mais importante casa nobre portuguesa, foi feito por João Baptista Venturino da Fabriano, secretário do cardeal Alexandrino Miguel Bonello, enviado papal à corte portuguesa em 1571 para propor Margarida de Valois como noiva de D. Sebastião. A união do rei de Portugal com a filha de Henrique II e Catarina de Médici — que acabaria por casar-se no ano seguinte com Henrique IV e tornar-se a rainha Margot de França, célebre pela morte de milhares de protestantes —, não se concretizou. E quanto aos escravos, nada mais se soube.

No século XVI viveriam 350 pessoas no paço ducal e a criação de escravos teria lugar num terreno ao lado da casa principal, uma zona ainda hoje conhecida pelos trabalhadores locais como a “ilha”. Atualmente só resta o chão, coberto de pedras, nas imediações do picadeiro e do local onde terá estado o torreão onde, em 1512, foi degolada D. Leonor, de 23 anos, pelo seu marido, o quarto duque de Bragança, D. Jaime, acusada de ter um pajem de 16 anos por amante.

O paço era então liderado pelo sexto duque de Bragança, D. João I, que três anos mais tarde acompanhou D. Sebastião na primeira incursão em África, levando com ele 600 cavaleiros e dois mil infantes. Não participou, contudo, na desastrosa expedição de 1578 devido a violentas febres, tendo enviado o primogénito D. Teodósio II, que com dez anos foi ferido em Alcácer-Quibir e viria a ser pai de D. João IV, aclamado rei de Portugal em 1640.

O “segredo”, com mais de 400 anos, continua a ser desconhecido por muitos dos investigadores da escravatura em Portugal. Os historiadores que o conhecem defendem que o episódio tem de ser estudado para que se compreenda se foi um caso único ou se representa a ponta de um novelo espesso.O primeiro a ficar incomodado com o relato foi Alexandre Herculano, no século XIX. Nos “Opúsculos”, volume VI, refere o texto de Venturino, com pudor: “Falando dos escravos, a linguagem do autor é bastante solta, e por isso não transcreveremos esta passagem. Basta saber que estes desgraçados eram considerados e tratados como as raças de cavalos em Itália, e pelo mesmo método, que o que se buscava era ter muitas crias para as vender a trinta e quarenta escudos”.

Foram as lacunas de Herculano que levaram Jorge Fonseca, estudioso da escravatura, a procurar o documento original. Encontrou-o na Biblioteca da Ajuda, traduziu a passagem e publicou-a em 2010 no livro “Escravos e Senhores na Lisboa Quinhentista”. Um ano depois, Isabel Castro Henriques, a maior especialista portuguesa da área, cita-a em “Os Africanos em Portugal, História e Memória, séculos XV-XXI”. E é ela quem mais se insurge com a inexistência de estudos: “Impõem-se investigações rigorosas. Este é um documento de extrema violência, em que os escravos são tratados como cavalos. A investigação é difícil mas tem de ser feita”, afirmou recentemente numa conferência sobre a escravatura, na Biblioteca Nacional, em Lisboa.

SINAIS DE ALERTA

Antes de Venturino, Nicolau Clenardo escrevera cartas em que, embora não tão explícita, é referida uma estrutura de produção com fins comerciais: “Os mais ricos têm escravos de ambos os sexos e há indivíduos que fazem bons lucros com a venda dos filhos das escravas nascidos em casa. Chega-me a parecer que os criam como pombas para levar ao mercado. Longe de se ofenderem com as ribaldias das escravas, estimam até que tal suceda.” Testemunha do Portugal do século XVI, Clenardo chegou ao país em 1533 para ser mestre do infante D. Henrique, irmão do rei D. João III e sem meias-palavras, relatou: “Mal pus os pés em Évora, julguei-me transportado a uma cidade do inferno: por toda a parte topava negros.”

Na publicação “A herança africana em Portugal”, Isabel Castro Henriques explica que “desde o início de quinhentos, os autores sobretudo estrangeiros davam conta de uma atividade de produção, marcada por um carácter insólito e cruel: a criação de escravos, como se de animais se tratassem, destinada a abastecer o mercado nacional, mas também para exportação”. E transcreve uma passagem da Collecção da Legislação Portuguesa (1763-1790), que denunciava a existência de pessoas “em todo o Reino do Algarve, e em algumas províncias de Portugal (que tinham) escravas reprodutoras, algumas mais brancas do que os próprios donos, outras mestiças e ainda outras verdadeiramente negras, (designadas) ‘pretas’ ou ‘negras’, pela repreensível propagação delas perpetuarem os cativeiros”.

Questionada sobre as razões da falta de estudos sobre os escravos, Mafalda Soares da Cunha, professora da Universidade de Évora e considerada a mais importante estudiosa da Casa de Bragança, não tem dúvidas: “A investigação histórica mais recente, incentivada pelas novas agendas historiográficas internacionais, começa a tratar de forma mais sistemática e menos dependente ideologicamente da questão da presença dos escravos na história de Portugal. Os resultados são manifestamente insuficientes, mas o tema deixou de ser maldito e silenciado como o foi no passado mais recente. Creio mesmo que desperta interesse entre as gerações mais jovens de historiadores que, de certa forma também entendem o estudo da escravatura como uma forma de participação nas lutas pelos direitos humanos. Mas ainda estamos num estádio muito embrionário.”
Fantasmas históricos, os escravos não são personagens principais. “O estudo de populações com pouco acesso à escrita e aos recursos de poder é sempre difícil. Não sendo atores reconhecidos pelo sistema político, pouco falam por si, a menos que colidam com o sistema instituído. As referências de época são muitas vezes indiretas e distorcidas e os conhecimentos desses grupos, e em particular dos escravos, exige sempre um esforço grande de desconstrução das visões dominantes da época e dos contextos em que se produziram as referências”, explica a especialista.

Há pouca informação, por exemplo, sobre os escravos agrícolas porque a sua existência não tinha outro interesse para a época senão como parte dos equipamentos de uma qualquer exploração agrícola. Mas como sublinha Mafalda Soares da Cunha, “eles existiam e agiam”. Num artigo na revista “Callipole”, Jorge Fonseca relata que o duque D. Teodósio I, em 1564, teria 48 escravos, dos quais 20 serviam na estrebaria, quatro na cozinha e na copa e quatro eram varredeiros, entre outras funções. A contabilização parece ser o mais longe que se consegue ir.

Quanto ao episódio dos reprodutores, relatado por Venturino, Mafalda Soares da Cunha desconhecia-o antes do contacto do Expresso e alerta ser necessário perceber o contexto do relato para compreender a intencionalidade da narrativa e a sua veracidade, mas conclui: “Não excluo evidentemente a possibilidade. A documentação que conheço da Casa de Bragança é totalmente omissa quanto a isso, mas a probabilidade de acontecer parece-me evidente.”

PERGUNTAS & RESPOSTAS

Quando chegaram a Portugal os primeiros escravos africanos?
Os primeiros escravos negros entraram em Portugal ainda no século XV, através de Marrocos, havendo registo de apreensões desde 1441, embora o uso de mão de obra escrava fosse largamente difundido desde o século XIV. Em 1444 teve lugar o primeiro carregamento de 235 escravos, trazidos do Golfo de Arguim, atual Mauritânia. O próprio Infante D. Henrique terá estado presente no primeiro leilão de escravos em Lagos, o passo inaugural para um importante negócio de exportação sobretudo para Sevilha, Cádis e Valência.

Quantos escravos existiam em Portugal no século XVI?~
Lisboa abrigava quase dez mil escravos, o que equivaleria a cerca de 10% da população da capital na altura. A maior parte dos escravos encontrava-se no Algarve, região seguida pelo Baixo Alentejo, Vale do Tejo e pelo distrito de Évora. No século XVII, o número diminuiu substancialmente devido ao desvio para o cultivo de açúcar no Brasil.

Qual a influência da procura de escravos no continente americano no seu preço?

A partir de 1540, o aumento da procura de escravos para as plantações de açúcar nas Antilhas, primeiro, e depois no Brasil, fez com que o preço dos escravos aumentasse exponencialmente, tendo sido registada uma valorização de mais de 500% em três décadas, segundo o historiador António de Almeida Mendes.

Quais os escravos mais cobiçados pelo tráfico negreiro?

Os escravos “minas”, originários da Costa da Mina, no Golfo da Guiné (Gana, Togo, Benim e Nigéria), eram os mais procurados nos mercados consumidores, devido à maior resistência física. Os “angolas” eram considerados mais frágeis e com uma maior tendência a cometer suicídio. Em 1644, um decreto do D. João VI autorizaria os comerciantes a comprarem diretamente a mão de obra àquela região, como explica o historiador João Pedro Marques no livro “Portugal e a Escravatura dos Africanos”.

Quantos escravos morriam nas viagens nos navios negreiros? 
Cerca de um quarto dos escravos morria durante o transporte transatlântico. Outros, cujo número é difícil de precisar, morriam nas viagens do interior até aos portos de embarque. Alguns, ainda, não resistiam à espera pelo embarque nos navios. Chegados ao destino, a vida nas colónias também os matava, o que permitiria totalizar a morte acumulada em todo o processo num patamar superior a 70%.

Qual o maior destino mundial de escravos?
O Brasil, entre meados do século XVI e até cerca de 1850, quando 42% do tráfico negreiro, o equivalente a cinco milhões de pessoas, terá partido de África em direção ao território brasileiro. Estima-se que atualmente cerca de um terço da população brasileira descenda de angolanos. Os maiores traficantes mundiais de escravos foram os portugueses radicados no Brasil.

Portugal foi o primeiro país a acabar com a escravatura?
Não. Em 1761, o marquês de Pombal, através de um alvará régio, acabou com o tráfico de escravos para a metrópole. A 10 de dezembro de 1836, uma lei proibiu o tráfico de escravos nos domínios portugueses ao sul do Equador. A escravatura continuou no Brasil até 1888, quando o país já era independente. Portugal só a aboliu totalmente em 1875. Em 1794, o Haiti foi o primeiro país a abolir a escravatura na sequência de uma revolta de escravos, seguindo-se a Dinamarca em 1804.

Texto publicado na edição do Expresso de 5 dezembro 2015

2018-04-11

Controlada por uma seita, abusada pelo pai e afastada dos filhos — esta é a história de Rachel Jeffs

É uma história de horror. Não é na Arábia Saudita ou numa tribo do Afeganistão, é nos EUA.
_____________  
link:  https://nit.pt/coolt/livros/controlada-seita-abusada-pai-historia-rachel-jeffs          Texto Andreia Costa  03/04/2018
_____________

Foi educada na poligamia e o líder mórmon, o pai, era um dos mais procurados pelo FBI. “Filha do Profeta” conta tudo e a NiT mostra-lhe um capítulo em exclusivo.
O Pai (é assim, com letra maiúscula, que é referido) controlava tudo, desde os nomes e a educação dos miúdos — mesmo os que não eram dele — àquilo que os maridos podiam ou não praticar com as inúmeras mulheres na intimidade. Pior do que tudo isso era o que fazia na sua própria família: começou a abusar da filha Rachel quando ela tinha oito anos e casou com crianças de 12. 

Warren Jeffs, líder da Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (um culto dentro da igreja mórmon), fazia parte da lista das dez pessoas mais procuradas pelo FBI. Foi condenado a prisão perpétua mas, mesmo preso, continua a controlar   o que se passa na sua seita poligâmica.

Rachel com os filhos (fotos de editora Planet  

Rachel Jeffs, uma de 53 filhos, conseguiu fugir e decidiu contar a sua experiência em “Filha do Profeta” 

Em miúda, o pai levava-a a bibliotecas para lhe mostrar pornografia e depois recriar com ela as imagens; conheceu o marido na véspera casamento e dividiu-o com esposas-irmãs, que não gostavam  dela e lhe trancavam os filhos em closets escuros; acusada de crimes falsos, foi enviada para casas de refúgio e afastada da família; a própria mãe foi considerada indigna quando lhe diagnosticaram cancro.
As histórias macabras e surreais sucedem-se nas cerca de 300 páginas deste livro. A NiT mostra-lhe, em exclusivo, um dos capítulos de “Filha do Profeta"                                                                                      
12. Terra de Refúgio
“Assim que fiquei apta a viajar, o Rich levou-me e ao nosso novo bebé de volta ao R23. Depois de cinco semanas no R17, no Texas, com a família do Pai, estava ansiosa por partir. Senti-me mal pelos meus irmãos e irmãs, que tinham de viver lá, rodeados de stress e do medo de serem expulsos à mínima infracção.
Mas a distância pouco fez para nos livrar do controlo do Pai. Quando ele deu o nome de Martha à minha segunda filha, eu disse ao Rich:
– Gostava tanto que pudéssemos ser nós a dar nomes aos nossos bebés. O Pai dá-lhes nomes tão feios e antiquados.
(A mãe do Rich chamava-se Martha.)

– Não digas isso, Rachel. É um privilégio ter o teu Pai a escolher os nomes para os nossos filhos. É o Pai do Céu que o inspira e devias sentir-te grata.
Graças ao antibiótico que a parteira me deu, desenvolvi uma infecção fúngica grave, chamada candidíase, que fez com que os meus mamilos inchassem de forma dolorosa e começassem a sangrar. Por isso, tornou-se difícil amamentar a minha recém-nascida. A intervenção médica não era uma opção, já que era suposto que nos mantivéssemos escondidos do mundo exterior e o Pai dizia que os médicos estavam guardados apenas para situações de vida ou de morte (e mesmo aí, como provara com a doença da minha mãe, podia ser que ele não permitisse). Em vez disso, devíamos rezar a Deus pela cura.
O Rich ficou contente por eu não poder dar de             Com o marido, Rich          mamar, porque em Fevereiro o Pai tinha dado formação aos homens em «moral celestial» e tinha-lhes dito que nunca deveriam ter relações sexuais com uma mulher que estivesse grávida ou             
a amamentar. O Rich encorajou-me a alimentar a Martha com                 
biberão. 
A minha infecção durou vários meses, até que o Rich pediu a um dos homens que ia a Short Creek para pedir Diflucan a uma das enfermeiras certificadas que trabalhavam no Centro de Saúde de Hildale. O Diflucan acabou com a infecção mas nunca mais pude amamentar a minha bebé, porque tinha perdido o leite.
A nossa família vivia num apartamento no armazém com uma pequena cozinha/zona de refeições, uma pequena sala de estar e quatro quartos. O Rich pôs-me no quarto junto ao dele, e tanto a Susan como a Molly tinham os seus próprios quartos. A Trish ainda estava em Short Creek, mas tínhamos as duas filhas dela connosco, o que significava que todas as mulheres tinham duas ou mais crianças a partilhar os quartos.
As minhas esposas-irmãs estavam cada vez mais ciumentas. Elas pensavam que como não estava a amamentar eu e o Rich tínhamos sexo todas as vezes que estávamos sozinhos. Por causa disso, estavam sempre a inventar formas 
criativas de se vingarem de mim e das minhas filhas. Por vezes, o Rich levava-me com ele para tratar de recados para o meu Pai e dizia-me para deixar em casa a Barbie, que ainda não tinha dois anos. Quando voltava, via que a tinham deixado por sua conta durante a minha ausência. Ela tinha de se vestir sozinha e perceber como se limpar quando sujava as calças. Os sinais não deixavam margem para dúvidas: ela tinha um ar desgrenhado e o meu quarto e casa de banho estavam uma confusão.
Ficava furiosa, mas não havia nada que pudesse fazer. O Rich dizia-me apenas:
– Ama e perdoa as tuas esposas-irmãs. É a única maneira de ajudar a Barbie.
Quando não estávamos a competir pela atenção do Rich, todas nós aprendemos muito sobre sobrevivência durante aqueles primeiros anos no Dakota do Sul. A nossa água tinha de ser transportada de uma cidade distante e havia alturas em que o camião se avariava e chegávamos a passar dois dias sem água. No Inverno, juntávamos neve em panelas e derretíamo-la para termos água para limpar e cozinhar. Fez-me perceber quão ingrata tinha sido sempre em relação ao luxo de ter água corrente.
As quatro passávamos muito tempo a coser roupas para a nossa família. De início tudo parecia bastante terrível e amador, mas lá acabámos por aprender a coser depressa e bem. Até nos divertíamos ao fazê-lo, desde que o Rich não estivesse por perto, para nos tornar a todas ciumentas.
O Rich estava encarregue do armazém e pediu-me para gerir os registos do inventário e a contabilidade. Aprendi sozinha a usar o QuickBooks para registar tudo. Também me pôs na estufa, onde eu semeava sementes e colhia as plantas de flores, frutos e vegetais para o nosso jardim. Não percebia muito do assunto, mas aprendi através da tentativa e erro  e           Com três das esposas-irmãs                             de todos e quaisquer livros que encontrasse sobre o assunto.
As minha esposa-irmã Molly mugia as vacas e tomava conta das galinhas. Levava muitas vezes as crianças com ela para a ajudar a dar comida e levar a cabo outras tarefas relacionadas com os animais. Elas gostavam muito.
Isto revelou-se uma bênção, uma vez que no início de 2005 o Pai nos enviou uma revelação de que o Senhor não queria que as crianças tivessem qualquer tipo de brinquedo. Ele disse que Deus considerava as bonecas uma paródia da Sua imagem e um ídolo. Bicicletas, skates, jogos – qualquer coisa divertida ou que as mantivesse entretidas era vista como obra do diabo.
[…]
A única coisa que nos restava para fazer era trabalhar, e havia trabalho de sobra, mesmo que fosse só para assegurar que tínhamos tudo aquilo de que precisávamos, incluindo medicamentos. Cultivávamos todas as ervas que o clima do Dakota do Sul permitia. Quando as crianças adoeciam, fazíamos-lhes chás de ervas e desenvolvíamos os nossos remédios naturais para as curarmos. Certo dia, enquanto fui a uma reunião geral, deixei as minhas filhas com a minha irmã Melanie, que agora vivia lá. A Melanie irrompeu pela reunião, com a Martha ao colo, que gritava sem parar. A minha irmã tinha adormecido enquanto a pequena Martha saltava na cama. Ela tinha saltado para fora da cama, aterrado num aquecedor e o pé ficara preso. A Melanie acordou quando ouviu os gritos da Martha.
Agarrei na minha filha e corri para a casa de banho, para pôr o pé dela debaixo de água fria. Assisti à pele dela a cair do pequeno tornozelo e da parte de baixo do pé.

As outras mulheres trancavam uma das filhas de Rachel um closet o dia todo

A Melanie sentiu-se culpada e ajudou-me a cuidar da Martha. Fiz-lhe um unguento com ervas e mudava-lho a cada cinco horas. Por sorte, passados dois dias já a Martha andava e as queimaduras sararam tão bem que quase não deixaram cicatrizes, embora ela tenha perdido a sensibilidade em algumas zonas por causa da gravidade dos ferimentos em certas terminações nervosas.
A maior parte das mulheres da igreja ficava de esperanças quando o filho mais novo tinha cerca de um ano. Mas depois da Martha não fui capaz de engravidar, o que fez as minhas esposas-irmãs ficarem ainda mais ciumentas e mais inclinadas a acharem que eu e o Rich andávamos a ter sexo a toda a hora. (Não andávamos.) Comecei a ficar desesperada por engravidar, nem que fosse porque não queria que estivessem todos zangados comigo. As esposas também estavam zangadas com o Rich e ele começou a passar cada vez menos tempo comigo para lhes agradar.

Entretanto, os problemas do Pai agravavam-se. Em Junho de 2005, as autoridades agiram por fim contra ele. Um grande júri do condado de Mohave, no Arizona, acusou-o de má conduta sexual com uma menor, de conspiração para cometer má conduta sexual com uma menor e de arranjar um casamento plural entre uma adolescente e um homem mais velho. Nesse mesmo mês, procuradores federais acusaram-no de fuga ilícita para evitar a acusação. O procurador-geral do Utah pediu a um juiz para congelar os bens da igreja, que ascendiam a mais de 100 milhões de dólares. Durante anos a igreja deteve e operou uma série de negócios, incluindo construção e usinagem, que resultaram em enormes receitas usadas para financiar a compra e construção das várias terras de refúgio e outras propriedades da igreja. Em Julho, o Utah e o Arizona juntaram-se para anunciar em conjunto uma recompensa de 10 mil dólares por inf. que levasse à detenção do pai.
Em Novembro, o irmão mais novo do Pai, Seth, foi mandado parar no Colorado, com mais de 140 mil dólares em dinheiro, cartões de telefone pré-pagos e cartões de crédito, e molhos de cartas dirigidas ao Pai, fosse como «Warren Jeffs» ou como «O Profeta». Seth admitiu às autoridades estar a levar estas coisas ao Pai mas recusou-se a revelar-lhes o seu paradeiro.
[…]
O Pai veio ao Dakota do Sul visitar-nos em Maio de 2006, mais ou menos na mesma altura em que o procurador-geral dos EUA o acusou de fuga ilícita e que o FBI o incluiu na lista dos 10 mais procurados, com uma recompensa de 100 mil dólares por informações que conduzissem à sua captura.
O Pai não nos contou nada disto e, uma vez que não tínhamos acesso à televisão ou à rádio, não tínhamos maneira de saber. Em vez disso, disse-nos a todos para escrevermos cartas de confissão, enume-     Ao lado do pai, Warren Jeffs. Com 12 anos  rando-lhe os nossos pecados. Na minha carta, disse-lhe que estava zangada com as minhas esposas-irmãs por causa da forma como me tratavam e às minhas filhas. O Pai,   
  que agora  era procurado pelo governo federal, lado a lado com assassinos e traficantes de droga,
     mandou-me uma mensagem de penitência, onde dizia que eu não era digna de o ver e que toda a nossa família tinha pecado.
O nosso castigo seria insano.”

2017-11-11

VICHNIKI - continuação de post em A FOTO


Continuação do "post" do blog A FOTO: http://afoto1963.blogspot.pt/

[As imagens são da Universidade de Moscovo, 1ª e 2ª, parte nova da cidade, uma estação do Metro e a última do Teatro Bolshoi ]

Com o inverno, veio a neve. Estávamos numa aula de Russo com a nossa jovem professora e especial amiga, Rosa, quando   grandes flocos de algodão começaram a cair intensamente do céu, em frente das janelas da sala de aula. Parecia uma cortina branca que esfarrapada caía, infinita, do céu. Era a neve no seu máximo esplendor. Para nós um espectáculo verdadeiramente surpreendente. Os berlinenses continuaram imperturbáveis mas nós, meridionais de climas tépidos, ficámos paralisados de espanto. Olhávamos, boquiabertos, para as janelas, alheados da professora Rosa e do seu Russo. Quase se melindrou com o nosso súbito e incompreensível desinteresse antes de se aperceber do que se tratava. Interrompeu então a aula para admirarmos aquele espectáculo nunca visto.


Com a neve a cobrir tudo de branco,  portugueses, africanos, latino-americanos  iniciámos a nossa aprendizagem de esqui caindo e rebolando na neve. A maior parte dos passeios de esqui e brincadeiras na neve fazia-as com a Leonor, mais dada ao desporto e mais namoradeira. Acho que foi aqui que o nosso futuro casamento começou. Da neve, da paisagem ou das quedas que nos obrigavam a abraçarmo-nos mais longamente para nos ampararmos melhor surgiu um até aí insuspeitado fulgor nas nossas relações “partidárias”.  Passei depois a estudar com ela, frequentemente, no meu quarto, sem a presença da Ana, apesar da sua reprovação.                           
Próximo do fim do curso decidimos casar, em Portugal, na clandestinidade, sem padre nem registo civil, o que veio a suceder uns meses depois, em Março de 1968. Veio a um encontro comigo na Rua da Cruz Vermelha em frente da antiga Feira Popular, em Lisboa e daí seguimos para o apartamento que eu alugara para o efeito, no Bairro da Beneficência e onde Ângelo Veloso, meu controleiro nesse período, veio participar na boda com leitão e uma garrafa de champanhe e desejar-nos felicidades e muitos meninos.

Surgiam todos os anos, na Escola, paixões arrebatadas entre jovens de países diferentes. Por  vezes entre comunistas em tempo de paz e comunistas em teatro de guerra, como sucedeu com o Giovanni, italiano que se apaixonou pela Marcela, guatemalteca e guerrilheira. Giovanni não quis, nem o deixariam, com o seu aspecto de italiano sofisticado, ir combater a tirania nas florestas semitropicais da América Central e Marcela que tinha um compromisso com o seu povo em luta não queria mudar-se para Roma. Giovanni era alto, forte e moreno. Desgrenhado. Sarcástico com os aspectos negativos que encontrava na sociedade soviética e sempre a dizer que na Itália era tudo mais bonito. Generoso e amigo de todos. Cantava ópera, claro. 
Marcela era em tudo diferente. Não se pode dizer que fosse muito bonita mas era tão grácil, tão serena e tão segura do seu amor à sua Guatemala que era quase comovente ouvi-la falar da sua terra e da luta do seu povo. Tinha os cabelos muito pretos e uns olhos muito vivos. O seu aspecto físico era frágil mas tão determinada nas suas convicções que o Giovanni não resistiu. 

A separação no fim do curso foi dramática. Quanto o autocarro com os guatemaltecos, peruanos e colombianos, se despedia da Escola e arrancava lentamente com Marcela amparada pelos seus companheiros de "Latinoamérica",  os choros e os gritos eram de cortar a alma e estremeciam os gigantescos abetos, até aí imperturbáveis, que rodeavam o jardim.

Mas a vida é assim. Grandes alegrias,  grandes desgostos.  Poucos dias depois de pisarem a terra natal, talvez detectados no regresso à luta, três dos nossos companheiros, duas raparigas e um rapaz, foram metralhados na cidade de Guatemala. Ainda tivemos tempo de o saber e chorar a sua morte em Vichniki. Mas a informação não indicava os pseudónimos, que era o que deles conhecíamos, e não os soubemos identificar. Assim, sem identificação, para nós era como se todos tivessem sido mortos. 
O Giovanni, com os outros italianos, já tinha partido, mas pensámos no que seria a sua dor se tivesse sabido de tão triste nova. Certamente jamais soube o que sucedeu a Marcela.

No posto médico que nos examinava à chegada, informavam os alunos que não faziam abortos às mulheres originárias de países onde ele era proibido. E era o caso de Portugal. A pílula ou não havia ou não era de fácil obtenção na altura. Por isso, um dia, eu e a Leonor, depois de fugirmos à Ana, entrámos numa farmácia que os locais, ignorantes da língua de Camões, designavam sem elegância, por Apoteca, para comprar uns cúmplices preservativos. Estávamos especados no meio da farmácia levando connosco apenas o nosso russo precário e sem saber como pedir na língua de Puskin aquelas borrachinhas salvadoras. Queríamos evitar a linguagem gestual que muitas vezes nos salvava do nosso Russo insuficiente porque naquela situação não seria muito lisonjeira. Fiados na barreira da língua discorríamos em voz alta:
— Que raio de nome dará esta gente aos preservativos?
— Preservatif? Preservatif? — logo acorreu solícita e salvadora uma menina do outro lado do balcão.
A primeira reacção foi a de quem é apanhado em flagrante a cometer uma má acção, mas logo me alegrei com a insuspeitada proximidade das línguas. Aqui e além.

Também a palavra café não anda muito longe do quase britânico "cófi". Por isso, soletrando o cirílico, pronunciámos vitoriosos, mais rápida a Leonor que eu por causa do seu jeito para as línguas, a enigmática palavra: "cófi". Entrámos resolutos e disponíveis para um café que já saboreávamos, apesar da sala ter mais o aspecto de um "self-service" que o de um café como a Brasileira, o Nicola, a Mexicana ou mesmo o nosso Pão de Açúcar. Qual não foi o nosso desânimo ao vermos trazerem-nos uns enormes copos cheios de café com leite. De regresso à Tcê Cá Chá apresentámos queixa à nossa professora de Russo, a nossa amiga Rosa — Tavárich Rosa! - e lá lhe manifestámos a nossa indignação. Explicámos a diferença entre um belo e fumegante cafezinho lisboeta, originário de Angola, de São Tomé, de Timor ou do Brasil, moca e robusta sem falar no suave e perfumado café da Colômbia e aquele medonho galão que nos serviram.
— Têm de pedir "tchornie cófi".
E assim ficámos a saber que café, mesmo café, só pedindo café preto. Mas em geral, quando pedíamos o "tchornie cófi" o que nos davam era café turco, com as borras no fim da chávena. E não tinham aquelas salas próprias, de verdadeiros cafés, a não ser o Café Puskin, na Rua Gorki. Era o que mais falta sentia em Moscovo e perguntava a admirados moscovitas como é que conseguiam viver sem o café de bairro. Onde é que discutiam a política? Onde é que diziam mal, isto é, onde é que diziam bem do Governo? Onde comentavam o último filme? Onde namoravam...? Respondiam-me que era nos clubes das empresas. Talvez. 
Um pouco antes das oito horas da manhã corríamos, estremunhados e descompostos para a casa de banho colectiva com uma fila de lavatórios e duches. Depois corríamos para o refeitório, para o pequeno almoço e às nove horas em ponto estávamos com os alemães na aula. Nós com a nossa intérprete a nossa muito querida Galina que tratávamos familiarmente por Gália e eles com a sua intérprete de russo-alemão. Durante todo o ano lectivo nem uma vez os alemães chegaram atrasados às aulas. Os alemães - já suspeitávamos - seriam pontualíssimos. Mas não me recordo de ter havido, uma vez que fosse, qualquer atraso de professores ou intérpretes. Um comportamento que em Portugal não é suficientemente valorizado. Mas nós não queríamos deixar os pergaminhos por mãos alheias, por isso, por nacionalismo ou por não querermos perder, nem a feijões, também nunca chegámos atrasados! Suponho que os nossos amigos berlinenses nunca suspeitaram desta prova de força que diariamente travámos com eles. Levávamos a peito deixar uma boa imagem do país. No aproveitamento escolar e na nossa conduta.

Em Vichniky, na nossa turma, os professores davam a lição em Russo e os intérpretes vertiam-na em alemão e em português. Para não me andarem a ensinar o que já sabia, os professores organizaram para mim, diligentemente, um plano de estudo, bibliografia e fichas que me permitiram aprofundar conhecimentos e, consequentemente, adequaram as provas de avaliação. Era uma prática comum aos diferentes grupos nacionais.
  
O Russo que fomos aprendendo já dava, ao fim de alguns meses, para nos fazermos entender nas visitas que duas ou três vezes por semana, fazíamos, sós, a Moscovo e também para sustentar uma conversação pouco rigorosa mas não era suficiente para dispensar o intérprete nas aulas.
A nossa turma era pequena. Além de nós três tinha apenas mais os quatro alemães de Berlim Ocidental.
O Sábado de manhã estava reservado à prestação de provas sob a forma de debates com o professor respectivo.
Sábado à noite havia convívio organizado pela escola com música e baile. O que hoje chamaríamos uma discoteca. Sem os efeitos especiais, sem música ensurdecedora, sem os belos sons da moderna música anglo-saxónica e quase sempre com as modas românticas da música russa.
Aprendíamos as cantigas populares das Américas, da Rússia e dávamos a conhecer, ao vivo , os fados da Amália, as cantigas do Zeca Afonso, e as populares como a Oliveirinha da Serra, Meu Lírio Roxo, Ai Malhão, Malhão. Afirmar que dávamos a conhecer as cantigas portuguesas é uma forma de dizer. A minha total incapacidade para cantar seja o que for deixava à Ana e em especial à Leonor essa incumbência. 
Quem melhor cantava era a Leonor cuja voz já gozava de grande popularidade e sempre era solicitada para cantar.  
Muitas vezes tínhamos que fugir dos nossos quartos ou fingir que não estávamos, para podermos estudar em sossego. Uma parte daqueles jovens “latinos” vinha da guerrilha urbana ou "campesina" ou de sociedades onde imperava a repressão brutal de esquadrões da morte. Talvez por isso, aquela ânsia de viver, pensei inicialmente. Mas depois verificava que os rapazes e as raparigas da Argentina, do México ou do Chile, países onde existia há muitos anos uma relativa paz social (Pinochet só veio cinco anos depois) eram iguais aos outros.
Por causa da língua e da proximidade, na nossa zona residencial, dávamo-nos mais com os latino-americanos e os franceses. E também com os guineenses e moçambicanos, apesar destes terem os quartos noutro edifício. Nesse ano não havia angolanos na escola.

Também evitámos as paixões internacionais, apesar da Deolinda, de pele acetinada e lindo tom castanho e do Cali que falava melhor o Inglês que o Português, constituírem um desafio nos primeiros meses à capacidade de resistência da delegação portuguesa. Assim, no continente africano, só namoriscávamos com os moçambicanos e guineenses e evitávamos o fogo ardente que nos imolasse como adivinhávamos acontecer à Carmela e ao Giovanni. 
Deolinda e Cali eram nomes de guerra. Nunca saberíamos o seu verdadeiro nome e nunca mais as nossas vidas se cruzariam. Sabíamos isso. O que dava às nossas relações um carácter transitório. E também um pouco estranho. Tudo o que poderia  haver entre nós ou aconteceria agora ou não mais aconteceria. E tudo o que activamente fomentássemos ou passivamente deixássemos surgir, amor ou ódio, zanga ou amizade, cooperação ou rivalidade, ficaria eterno no efémero encontro das nossas vidas em Vichniky.

No nosso círculo de convívio privilegiado entravam alguns soviéticos, em geral intérpretes ou professores, que falavam português, castelhano ou francês. Com alguns tínhamos uma relação muito próxima, cúmplice e amiga. E isso sucedia com cinco ou seis russos e russas, um tchetcheno, o que dominava sete línguas, e que para que conseguíssemos pronunciar-lhe o nome passou para nós a chamar-se Henrique, um mongol nosso professor e uma lituana de nome Liuda. Surpresas com os nomes também nos trouxe a delegação do Ceilão na qual havia um José e falava-nos dos indícios, ainda detectáveis, na sua terra, da passada presença portuguesa.

Tinham-nos dado um bilhete de identidade soviético que nos permitia o livre trânsito por Moscovo e a região à volta e recebíamos uma bolsa que nos permitia uma vida relativamente folgada. Amealhámos rublos e copeques e adquirimos um gira-discos com um "design" muito desanimador,[mas em contrapartida comprámos, muito barata, uma robusta colecção da melhor música e dos melhores intérpretes. Do Barroco ao século XX, Bach, Hendel, Vivaldi, passando por Mozart e Wagner aos russos do século XIX e XX Tchaikovsky, Borodine, Mussorgsky, Rimsky-Korsakov, Scriabin, Shostakovitch, Stravinsky, obras completas e não apenas excertos. Uma excelente colecção de discos, de música erudita, que, como tudo o resto, lá ficou. Não era impossível fazer chegar a Portugal todo o nosso património adquirido em rublos mas, para além de ostentarem marcas pouco discretas no Portugal salazarento, não era aconselhável andarmos com demasiado enxoval atrás de cada vez que tínhamos de mudar apressadamente de casa, por vezes abandonando tudo.

Gália, a nossa intérprete era uma russa de vistoso cabelo de tons dourados, culta, grande conhecedora da literatura portuguesa e brasileira. Conhecia Fernão Lopes e Fernão Mendes Pinto e, é claro, Camões. Conhecia Camilo, Eça, Oliveira Martins, Camilo Pessanha, Pessoa, Cesarini, Aquilino, Namora, Redol, ou Fiama ou Ruy Belo. E não era apenas os nomes.

 Gália, que se veio a tornar uma dedicada amiga, organizava-nos um intenso e requintado programa cultural extra-escolar. Assistimos à temporada de ópera de um dos mais famosos teatros do mundo, o Teatro Bolshoi. Tornámo-nos assíduos frequentadores da Tchaikovskaya Zal, onde conseguimos ver actuar alguns dos mais famosos intérpretes musicais de então. Sviatoslav Richter ao piano, David Oistrakh, não ao violino como já o vira em Lisboa, no Tivoli, mas como regente de orquestra. O filho, Igor Oistrakh, outra celebridade, no violino. No famoso palácio dos Congressos ou no Teatro Bolchói familiarizámo-nos com o clássico balet russo e conseguimos ver a inesquecível Maya Plisetskaya que, já velhinha, nove anos depois, encheu de aplausos o Coliseu de Lisboa, e um infindável número de excelentes bailarinos.


Uma vez por mês recebíamos a visita do representante do PCP, Manuel Rodrigues da Silva, para uma reunião política. Tratava-nos com desvelo e parecia-me bastante mais à vontade em Moscovo do que da primeira vez que o vi, em 1965. Tinha o bom senso, coisa que não aconteceu com outros, de não nos andar a explicar como havíamos de considerar boas as coisas más que  observássemos na sociedade soviética nem se devíamos namorar muito ou pouco e quem. Trazia-nos jornais portugueses e notícias de Portugal. As prendas que mais apreciávamos.

Estávamos em Junho e quase a partirmos para a viagem de fim de curso, com o grupo de Berlim Ocidental, quando chegou a ordem do PCP para eu partir imediatamente para Portugal para se dar inicio rapidamente às acções armadas.
Achei a ordem totalmente inoportuna porque a viagem de fim de curso era nem mais nem menos que à Sibéria e, como se sabe, não se vai à Sibéria todos os dias. Ia à Sibéria. Não para a Sibéria! Coisa muito distinta. O objectivo era visitar as grandes barragens hidroeléctricas do Oriente. A de Bratsk no Angara e a de Krasnoyarsk  no Yenisey. E incluía uma visita ao Lago Baikal e um passeio pela taiga siberiana.
No fim do curso, cada grupo tinha direito a uma visita a uma república ou região da União Soviética.
— Carliucha, que quer você ir visitar no fim do curso? — perguntava-me, solícita e interessada, a nossa amiga intérprete Galina, no seu português de sotaque brasileiro e com o diminutivo à russa.
— Aonde é que podemos ir?
— Aonde você pedir, Carloss  (Carlos era o pseudónimo que usava em Moscovo) Se o vosso curso não conseguir o que quer, nenhum conseguirá! — animava-nos a Gália. De facto, o pequeno grupo português usufruía da mais elevada cotação na opinião dos professores e da Direcção da Escola. Quer pelo aproveitamento escolar, onde nunca tirámos menos que o máximo, nos seminários, quer pelo comportamento. Também cuidávamos da imagem de Portugal com iniciativas políticas e culturais, em realizações de carácter circum-escolar, como o Dia de Portugal, ou de solidariedade com a luta dos povos das colónias portuguesas. E até pela higiene e arranjo dos nossos quartos.
Um dia fomos surpreendidos com uma menção pública por sermos a delegação que tinha os quartos mais limpos e melhor decorados. Não sabíamos que nos revistavam os quartos enquanto estávamos nas aulas!
— Então posso pedir à vontade? — enfatizei para a nossa amiga Gália, desconfiado da fartura. Se assim é, então quero ir à Sibéria — propus, descrente.
Era o que Gália queria ouvir porque essa era a sua secreta ambição. Já tinha viajado muito pelo seu país mas à Sibéria, quase no outro lado do mundo, nunca tinha ido e, como nossa intérprete, acompanhar-nos-ia.
— Que óptima ideia! Mas o pedido tem de ser fundamentado porque é uma viagem muito grande, dispendiosa e só muito raramente concedida. Mas para as "mininas" e para o "Carloss" os camaradas vão, com certeza, concordar.
O pedido foi aceite e a comunicação da Galina fez que todos, nós e ela, pulássemos de contentamento. Afinal… para eu não ir. Fiquei sempre a invejar a visita da Ana e da Leonor cujos verdadeiros nomes são Mariana e Maria Machado, à Sibéria, e a maldizer o fascismo português porque maldizer o partido, por me requisitar tão intempestivamente e afinal sem razão plausível, parecia-me pouco estatutário .

2015-08-21

Bento de Jesus Caraça, um homem que abençoava as ilusões

Intervenção de Helena Neves 

na Iniciativa do Movimento Não Apaguem a Memória - NAM em parceria com campOvivo, em 5 de Janeiro de 2015, na Padaria do Povo, onde funcionou a Universidade Popular entre 1919 e 1948

______________________________

Há cem anos, nasceu uma criança do sexo masculino que, diriam mais tarde as velhas mulheres, parecia fadada por uma estrela. Estrela, sem dúvida, contraditória. Porque, se cedo se evidenciou que a sua sorte seria diversa daquela a que a origem social o destinava, e a sua vida se afirmou, desde a infância, como conquista de espaços cada vez mais amplos, o seu tempo seria breve. Ao morrer, 47 anos depois, o adulto que foi esse menino diria, segundo testemunho do sobrinho, «tão pouco tempo...» Tempo breve mas intenso. Marcando a sua época. E a nossa ainda.
 Falamos de Bento de Jesus Caraça, filho de trabalhadores rurais, nascido a 18 de Abril de 1901, em Vila Viçosa.
A morte tocou-lhe à nascença. Conta a irmã, mais nova, Filomena Caraça, que a mãe, aflita, vendo o menino a finar-se, correu à igreja a baptizá-lo, sem pensar sequer que nome pôr-lhe. Acudiu-lhe o padre, sugerindo Bento de Jesus. Mais tarde, Bento Caraça ironizará em resposta a uma crítica ao seu trabalho em O Diabo, jornal da frente intelectual mais radicalmente oposicionista e plataforma do movimento neo-realista. «Um articulista de Beja descobriu numa hora de ócio que há uma quase contradição entre o meu nome tão católico (sic) e o meu ingresso nas hostes diabólicas (re-sic). Que quer amigo? Fui baptizado à pressa e com um escasso mês de idade. Razões por que se julgaram dispensados de me consultar...»
Levado aos dois meses, pelos pais, para a Aldeia de Montoito, no Redondo, onde o pai é feitor da Herdade da Casa Branca, dá aí os primeiros passos e conhece, com pouco mais de 4 anos, as primeiras letras ensinadas por um trabalhador errante, desses que sazonalmente chegavam ao Alentejo, este trazendo, no pouco de seu, uma cartilha  escolar. Impressionada com a inteligência do menino, a senhora da herdade, D. Jerónima, torna-se «sua protectora»: assim assinará as cartas e postais que lhe escreve, até morrer, para os diferentes lugares para onde o envia a aprender a ser diferente: um homem culto.
 É neste percurso protegido que Bento Caraça passa pelo Liceu Sá da Bandeira, em Santarém, e, em 1915, se encontra no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, espaço de descoberta de amigos, como Luís Dias Amado, tornado quase irmão, e Carlos Botelho, pintor da cidade e dos seus entardeceres; espaço de encontro com o amor através de Maria Octávia, filha do professor de matemática, Adolfo Sena; e limiar de um combate em que política e cultura constituem uma mesma matriz..
Em 1918, Bento Caraça termina com distinção o curso liceal e entra no Instituto Superior do Comércio, designação ao tempo do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, actualmente Instituto Superior de Economia e Gestão. Em Fevereiro de 1919, no segundo ano do curso de Economia, escreverá numa folha de papel que encontramos no seu espólio: «hei-de ser o primeiro aluno do meu curso». Sê-lo-á. Nesse mesmo ano, o professor Mira Fernandes, insigne matemático, recomenda a sua nomeação como 2º assistente temporário do Instituto para as cadeiras de Álgebra Superior e Geometria Analítica, 1º grupo. . Licencia-se em Outubro de 1923 com «bom com distinção», em 1924 passa a 1º assistente, em 1926 entra para a Comissão de Redacção da Revista de Economia, em 1927 é nomeado professor extraordinário e em 1929 é professor catedrático. A sua carreira revela-se fulgurante.
Com ele e através dele, a matemática torna-se um universo diferente, fascinante. Quer pelo seu estilo pedagógico, quer pela paixão que imprime e comunica na divulgação da matemática. Sucede algo de inusitado no Instituto. Alunos de outras turmas, de outras faculdades, de outro âmbito escolar, até de ciências humanas, afluem às suas aulas. As aulas inaugurais de início do ano escolar tornam-se um acontecimento cultural, um ritual de passagem. Este professor que transforma o olhar sobre uma matéria até considerada inóspita, este homem que vê no rosto dos alunos o estado de ânimo e os interpela pessoalmente, os consola e aconselha, este homem irónico e meigo, é, porém, extremamente rigoroso, exigente. Os alunos parodiam as iniciais do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras: «Isto sem o Caraça era fácil».
Como estudioso e divulgador, Bento Caraça introduz uma ruptura fundamental. Na sua obra, atrás do número, das figuras geométricas, das equações, é todo o tempo humano que pulsa, a respiração do social, as contradições de classes, a ansiedade e a luta dos homens fazendo-se no acto de fazer a história e as ciências. Praxis social e matemática cruzam-se dialecticamente. A renovação pedagógica e epistemológica do livro Os Conceitos Fundamentais da Matemática, editado em 1941, ofusca outras obras de Bento Caraça no mesmo domínio. É o caso de Lições de Álgebra e Análise, cuja publicação, em 1935, marca, segundo o professor Sebastião e Silva, «uma presença na história do ensino da matemática em Portugal». Este paradigma novo, que recupera a historicidade da produção científica, transparece no domínio da econometria que Bento Caraça introduz na investigação académica. Em consequência, cria, em 1938, com Mira Fernandes e Caetano Beirão da Veiga, o Centro de Estudos Matemáticos aplicados à Economia. Impulsionará, também, o Movimento Matemático que, entre 1937 e 1947, congregará matemáticos, físicos e químicos, numa linha de investigação inovadora, criativa, em consonância com a investigação internacional. Caraça encontra-se também entre os primeiros académicos que constituem, em 1940, a Sociedade Portuguesa de Matemática, cuja comissão Pedagógica dirige. Na Sociedade encontra-se entre os fundadores da Gazeta da Matemática, e participa nos congressos da associação Luso espanhola para o Progresso das Ciências, em 1941, no Porto, e, em 1944, em Cordoba.
Se na matemática Bento de Jesus Caraça opera um corte epistemológico transversal a todo o domínio científico, no plano cultural constituirá, como salienta Eduardo Lourenço, uma referência constante na sua própria geração e na que se lhe sucede. Quando dizemos «obra», significamos não apenas a vasta produção teórica, mas as práticas que protagoniza e incentiva. O que se trata é de praxis revolucionária, uma praxis em que combate cultural e político coincidem, no puro sentido do jovem Marx, filosofia, cultura, comprometidas na mudança do mundo.
Para o grupo social dos intelectuais de esquerda, dos anos trinta e quarenta, num leque vasto que vai de republicanos, mais ou menos radicais, seareiros, a marxistas, as armas da crítica têm um alvo político directo, a ditadura salazarista. Se divergem ideologicamente e se opõem, frequentemente, na concepção táctica e estratégica, o seu alvo é o mesmo: o derrube do auto-designado «Estado Novo». Toda a inteligência oposicionista esgrime contra a situação de miséria social e cultural, para cuja mudança a cultura é tão mais fundamental quanto o salazarismo investiu ideologicamente no obscurantismo, nomeadamente por via da «Escola, oficina de almas», e, de forma mais refinada, da «Política do Espirito» que, sob o impulso inteligente de António Ferro, mobilizou mesmo alguns intelectuais não fascistas.
É pois num contexto de condicionamento cultural, fortemente repressivo, agindo nas consciências e nos actos pela censura e pela interdição das liberdades de reunião e de associação, que Bento de Jesus Caraça sobressai num grupo de outros importantes combatentes. A sua concepção de cultura «como despertar das almas», de «aquisição da cultura» como significando «a conquista da liberdade» afirma-se na série de conferências e escritos (mesmo os matemáticos), nos artigos que publica no Globo, jornal efémero que, a 11 de Novembro de 1933, funda e  dirige com José Rodrigues Miguéis, no Liberdade, em O Diabo , na Seara Nova  e noutros órgãos de intervenção. Mas não somente. Toda a sua vida quotidiana é de empenho cultural e político. Na Universidade Popular Portuguesa, cujos corpos gerentes integra, desde a fundação em 1919, e a que preside, desde 1928 até à morte, Bento Caraça imprime um debate de ideias, uma perspectiva de cultura como impulso para a mudança, que tornam este espaço uma vanguarda de divulgação literária, artística e científica, cuja dimensão, em termos nacionais mas também internacionais, está ainda por ser devidamente estudada.
. No mesmo sentido, funda a Biblioteca Cosmos, com Manuel Rodrigues de Oliveira, que dirige desde 1941 até à morte. Uma Biblioteca que pretende ser, como escreve ao apresentar a colecção, «uma pequena pedra» para «toda uma vida nova a construir dominada por um humanismo novo». Em torno deste programa, Bento Caraça congrega intelectuais num espectro muito amplo de pertenças e referências do pensamento da época, muitos deles já colaboradores da Universidade Popular. O projecto gráfico é do amigo Carlos Botelho. Considerada já a primeira enciclopédia portuguesa, anterior à colecção francesa «Que sais-je?», a Biblioteca Cosmos, produção de transdisciplinaridade, no sentido conceptual contemporâneo, contará com a colaboração, entre outros, de Adolfo Casais Monteiro, Adriano Gusmão, António Sérgio, António da Silveira, Diogo de Macedo, escultor, José Gomes Ferreira, Luís Navarro Soeiro, Manuel Peres, Mário Dionísio, Mário Neves, Orlando Ribeiro, Paulo Quintela, Ruy Luís Gomes, Vitorino Magalhães Godinho. Publicam aqui os primeiros livros, Rómulo de Carvalho, Agostinho da Silva, Irene Lisboa, Luís de Freitas Branco, Fernando Lopes Graça, Manuel Mendes, Maria Silva, Alberto Candeias, Flausino Torres, Eugénio Conceição Silva, Ramiro da Fonseca. Até 1948, ano da morte de Caraça, a Cosmos publica 145 volumes, correspondendo a 114 títulos, com uma tiragem global de 793 500 exemplares.

Mesmo quando a intervenção de Bento Caraça se assume numa vertente mais situada politicamente, é ainda e sempre o «despertar das almas» que o move. Porque, como acentua em diversas fórmulas, as revoluções pressupõem uma consciência necessária à sua sustentabilidade.
            Destacando-se no empenho pelo frentismo político, Bento Caraça funda a Liga contra a Guerra e o Fascismo, é um activista no apoio aos presos nos campos de concentração nazis e aos refugiados, colabora na Frente Popular, surge como um dos  mais estacados fundadores do MUNAF, Movimento de Unidade Nacional Antifascista, em 1942, e do MUD, Movimento de Unidade Democrática, em 1945, de cuja comissão central será vice-presidente. Por este envolvimento, no qual produz importantes documentos de análise política, será preso várias vezes e demitido das funções de docência a 8 de Outubro de 1946, sob a acusação de ter assinado um documento contra a admissão de Portugal na NATO, tal como o professor Mário de Azevedo Gomes, co-autor do documento e presidente da comissão central do MUD.
É já então casado com a segunda mulher, Cândida Gaspar, a aluna que o levou a abandonar a longa viuvez do breve casamento com Maria Octávia, que durara menos de um ano. Com Cândida, que lhe devolve a paixão e a ternura, será também breve a vida. Ele sabe-o. A doença cardíaca, já de longa data, agravava-se. Por isso o olhar de profunda ternura com que segue os primeiros passos vacilantes de João, o seu filho, é um olhar pleno de nostalgia. Nostalgia do futuro. E nas últimas fotografias antes da morte, a 25 de Julho de 1948, Bento Caraça devolve-nos o sorriso magoado dos que sabem que vão morrer.
Deixará uma obra invulgar. E uma invulgar saudade. Porque muitos foram os que o amaram nesse tempo de cruzamento de cumplicidades, de militâncias e de amizades. E mais ainda os que o admiraram.
No seu enterro, a 27 de Julho de 1948, uma impressionante multidão, num impressionante silêncio, vai pelas ruas de Lisboa, de Campo de Ourique ao Cemitério dos Prazeres. Agentes da polícia política enquadram a multidão, infiltram-se nela à espera da quebra do silêncio que não sucede, e, intimidatoriamente, filmam todo o funeral, nas ruas e no cemitério. Um cortejo simbólico, uma quase coreografia, imaginada pelo amigo Fernando Piteira Santos, as jovens e os jovens,  em bloco, as mãos densas de flores. Afirmando a continuidade na ilusão do mundo que Bento Caraça procurou no seu empenho cultural e político.
Como ele escrevera em 1939, na Seara Nova, «as ilusões nunca são perdidas. Elas significam o que há de melhor na vida dos homens e dos povos. (...) Benditas as ilusões, a adesão firme e total a qualquer coisa de grande, que nos ultrapassa e nos requer. Sem ilusão nada de sublime teria sido realizado, nem a Catedral de Estrasburgo, nem as sinfonias de Beethoven. Nem a obra imortal de Galileu.»