2009-10-30

Exegese de Saramago

Artigo de João Maria de Freitas Branco no Público de 28 de Outubro de 2009.
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Espero que o meu caro José Saramago, autor aclamado nos vários cantos do mundo, me perdoe o atrevimento que este escrito consubstancia. No calor da viva polémíca suscitada pelo lançamento de Caim tem-me parecido não ter ele conseguido ainda explicar de modo claro o central motivo da sua apoquentação, bem como o consequente objectivo visado pelo discurso seu em torno da Bíblia e das leituras que dela se fizeram (fazem) na suposição de ser texto sagrado.


E com esse sentir que me atrevo a descer à liça, mesmo sabendo correr o risco de aparentar soberba ou pedantaria, pois o nosso Nobel, claro está, não precisa de advogado.

Mesmo assim, arrisco o gesto, não porque Saramago dele necessite, repito, senão que por ser eu seu confrade no combate à confusão, no apego à lucidez. Digamos que venho como advogado da racionalidade anticonfusão, num modesto esforço de dilucidação; não como dispensável defensor do autor de Caim.

Quando, referindo-se á Bíblia, o escritor a classificou de “manual de maus costumes”, ou quando disse “Deus não é de fiar”, em virtude da crueldade, das violências, das imoralidades contidas no relato bíblico, parece-me evidente ter querido acentuar apenas uma vertente, e não estar a dizer que a isso se reduziam todos os textos que compõem a Bíblia. Mas assim não foi entendido por alguns. Admitem esses, portanto, ser Saramago um pobre de espírito, alguém intelectualmente indigente que nem sequer reconheceu a evidente grandeza moral e estética de certas partes do Livro. Mas para que havia ele de insistir numa tecla tantas vezes premida? Num óbvio por outros continuamente apregoado neste torrão tão saturado de catolicismo? Interessa-lhe sim atrair a atenção para o que é ocultado, disfarçado, não dito, mas que contém gravíssimos riscos. No fundo, se bem en tendo, ele quer alertar para o facto da grande maioria dos crentes continuar refém da literalidade na leitura de texto nada isento de obscenidades ético-morais. Contém isso, objectivamente, graves perigos para o viver concreto dos humanos, bem como para a saúde do corpo societal.

Quando falam ao seu rebanho, os prelados da Igreja não se distinguem por avisar que o sr. Abel, o seu irmão assassino, a sra Eva ou a serpente loquaz nunca existiram. Não dizem: - é tudo fantasia simbólica; não devem por isso acreditar no que está literalmente afirmado. Ou seja, não endereçam ao rebanho a mesma recomendação dada a Saramago. Sábia prudência?

Quando hoje assistimos a uma missa não é de simbolismos que ouvimos falar. Não é a leitura simbólica de respeitáveis teólogos exegetas a que ecoa no templo. Nos pastores do rebanho, também não se lhes vê entusiasmo no sistemático combate à incultura, à insciência, assumindo, p.e., a defesa da teoria da evolução. Não se nota haver preocupação face aos dados estatísticos reveladores de assustadora ignorância criacionista. Esses factores de obscurantismo não parecem apoquentar os senhores da Igreja. Mas apoquentam, e muito, outros espíritos. Tal é o meu caso e o do romancista agora acusado de desrespeitosos dizeres, Porque aí reconhecemos imensa ameaça. É preocupação fundada na história, fácil é de ver. Quantas atrocidades de bíblica inspiração, meu deus!

O crente comum lê a Bíblia como sendo o mais valioso e referencial escrito, pois transporta a palavra de Deus. Aí, mais do que em qualquer outro lado, espera ele encontrar a Verdade, os princípios morais, as orientações fundamentais para uma vida sã. E terá que interpretar com base na informação de que dispõe. Onde pode ele ir descortinar simbolismos complexos que nem entre os sábios teólogos exegetas reúnem consenso? Que mensagem divina vai ele então assimilar? Que práticas vão resultar dessa assimilação? Aqui reside o problema.

Urge colher os ensinamentos da história, para não ficar mos prisioneiros de limitações pretéritas. Impõe-se oferecer permanente resistência à ameaça do obscurantismo que a ignorância alimenta. Se muito não erro, é isso que move Saramago, assim como, já gora o confesso, este modesto escriba da confraria dos amigos da Razão. Filósofo